Figureiros de Taubaté

Taubaté destaca-se pela preservação e apoio à cerâmica figurativa.

Das heranças ancestrais, uma das mais significativas manifestações artísticas taubateanas são os “figureiros”.

De suas mãos hábeis, vão surgindo figurinhas que retratam aspectos do povo, animais, crendices e tradicionais festas populares.
A habilidade na modelagem da argila parece ser no Vale do Paraíba mais uma herança portuguesa do que indígena ou do negro.

Entremoz e Barcelos são exemplos das cidades portuguesas, onde a confecção das figurinhas de barro e peças de olaria são uma tradição popular. Taubaté inclui-se entre as poucas cidades brasileiras que ainda preservam essa tradição.

O pavão, figura bastante tradicional na arte figurativa local, ficou sendo o símbolo do Folclore de Taubaté.

A Prefeitura Municipal preocupada com a difusão e preservação dessa arte popular criou a “Casa do Figureiro”, local onde os figureiros trabalham e comercializam suas obras.

A implementação do turismo é também uma das prioridades dessa administração. Sendo assim, a Prefeitura iniciou um projeto pioneiro no Vale do Paraíba; é a revitalização da Rua da Imaculada.

Essa rua, conhecida como o reduto das figureiras, está recebendo um tratamento especial, as casas dos figureiros estão sendo restauradas e pintadas dentro da estética figurativa dos artesãos.

A entrada da rua recebeu um portal que foi idealizado pelo talentoso artista plástico José Demétrio.
Quem assina o projeto de revitalização da Rua Imaculada é a arquiteta Cristina Aparecida da Silva.

RUA IMACULADA


Situado à esquerda da via Dutra, no sentido de quem vai do Rio de Janeiro para São Paulo, encontra-se o Morro de São João, Município de Taubaté, Estado de São Paulo, onde se situam a Igreja e a Rua Imaculada.

Essa rua é um raro exemplo de “comunidade cultural”, é um caso à parte; tanto assim que serviu de inspiração ao compositor Renato Teixeira através de uma gravação em compacto simples da CA de 1979.

Perguntas que se fizeram e se fazem os que se interessam pela Rua Imaculada:

• Como uma comunidade tão antiga, tão perto de um grande centro (portanto mais sujeita a influências) conseguiu guardar um grau de ingenuidade tão marcante?
• Por que trabalhar o barro, havendo nas proximidades tantas oportunidades diferentes?
• Porque acham bonito as suas obras?
• Porque têm um mercado certo?
• É a Imaculada (rua) uma ilha que se defende das influências “de fora”, mas que se deixa penetrar pelos momentos de vai e vem de sua comunidade, trabalhando suas vivencias pessoais conscientes ou inconscientemente?
(Resumindo o pensamento yunguiano, vivemos entre dois mundos: as imagens externas do consciente e as internas do inconsciente). “O jogo da arte será o encontro desses dois mundos que se comunicam entre si”.
• Qual, portanto, a importância que dão os figureiros da Imaculada à arte, como válvula de escape, oportunidade para uma pessoa extravasar o que lhe vai por dentro?

INFLUÊNCIAS

Como componentes da raça e da cultura brasileiras estão os índios, os brancos e os negros.
Sabe-se que os índios, desde o descobrimento trabalhavam com o barro, como por exemplo, a cerâmica Tapajônica. Os Goianas ou Guaianás, Puris e Jeromiris deixaram suas marcas. Na cidade de Aparecida existe um Museu, sob os cuidados da professora conceição Borges Ribeiro com diversas peças encontradas na região, bem como no acervo da divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico da Prefeitura Municipal de Taubaté.

Há pouco tempo, fazendo escavações no Morro de São João, a menos de 500 metros da Rua Imaculada, exatamente no local onde se ergue a estatua do Cristo Redentor, os operários deram com um urna funerária com ossos humanos e a parte externa decorada; foi levada a estudos na Capital. Procurou-se vislumbrar a influencia indígena nos figureiros da Imaculada, mas não se encontrou qualquer indicio. Apenas Bartholomeu Nogueira, um dos figureiros, tem as características de um mameluco: cor acobreada, traços fisionômicos, barba rala.

O Professor Florençano viu fabricarem panelas pelo método indígena: o de “corda” – influencia indígena que não pode ser contestada. A cestaria (fabricação de cestas) é também herança dos primitivos habitantes do Brasil. Os primeiros figureiros faziam cestas para levarem seus produtos ao mercado.

INFLUÊNCIA BRANCA

Tratando da influencia portuguesa transcrevemos o que disse Cecília Meirelles para a Revista do Folclore, São Paulo, 4ª edição: “em nossa historia colonial, as vagas referencias que existem sobre escultura, levam-nos a crer, que os primeiros que a praticaram, ou era ajudantes dos missionários com quem trabalhavam na decoração das capelas ou escravos bem dotados, que à tardinha, saiam para negociar santos, frutos do seu trabalho. Não é possível afirmamos que estas esculturas fossem sempre religiosas. Parece-nos, entretanto, que foi por aí que se chegou à escultura profana. E o grande veículo da cerâmica popular no Brasil parece ter sido o presépio”, eram os chamados “Barristas”. Continua Cecília Meirelles referindo-se diretamente aos frades do Convento de Santa Clara de São Francisco das Chagas de Taubaté: “os franciscanos tiveram a incumbência de aldeiar os índios. Em 1730, existiam dezesseis religiosos que além de confessar os fieis e entre eles os índios, com estes, começaram a repetir a tradição portuguesa dos santos de barro”. São, portanto, os franciscanos os principais responsáveis pela disseminação dos figureiros. Uns dizem que as figuras eram de palha, outros de estopa.

Entretanto houve uma diferença entre as figuras primitivas da Ilha de São Miguel e as do Vale do Paraíba. Estas últimas, menos frágeis, porque os figureiros do Vale colocavam suportes de madeira nas pernas das figuras, criando assim um tipo de escultura popular característico. O mesmo aconteceu na Bahia, região de Cachoeira.

INFLUÊNCIA NEGRA

É bastante pequena a influencia negra na comunidade da Imaculada, porque os escravos negros só chegaram no Vale do Paraíba no final do século XVII com a mudança da Corte Portuguesa para o Brasil. Assim sendo as lavouras aumentaram no Vale e se fez necessária a mão-de-obra negra. A essa altura, costumes e usos já estavam arraigados e uma cultura nova como a negra, só aflorou superficialmente.

O que ficou de mais importante neste caso, foram as danças trazidas pelos escravos até hoje muito populares no Vale do Paraíba e também cultivadas na Rua Imaculada: Rodas de Jongo, Moçambique, congada, cujas figuras os figureiros representam, como também das “pretas velhas” com feixes de lenha na cabeça as socadoras de pilão(herança africana).

Não podemos esquecer como influencia africana também, o uso dos remédios e “passes mágicos”, como neles se referiu em sua música da Rua Imaculada, o compositor Renato Teixeira.

OS FIGUREIROS

São diversas as famílias de figureiros que continuam esse artesanato:
• Família Monteiro de Oliveira Huesca
• Família de Anastácia e Idalina
• Família de Bartholomeu Nogueira
• Família das Irmãs Santos e alguns agregados
• Família de Angela Lúcia Sampaio Morgado
• Família de Conceição Frutuoso

Cabe-nos aqui destacar Geraldo Caçador – o único figureiro que trabalha em madeira na rua.
Pudemos verificar que quatro gerações de figureiros tem sido levantadas nos estudos realizados.

EVOLUÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA

A evolução sócio-econômica da Rua Imaculada passa pelo progresso material e pela socialização dos moradores, sem que isso, entretanto, tenha modificado sua maneira de pensar, nem seu apego às formas tradicionais de trabalho:

a. De criadores à lavradores empregados junto a outros mais ricos, a pequenos sitiantes (Hoje todos os moradores da rua são proprietários do local de moradia, e isso de longa data);
b. De sitiantes à pequenos comerciantes (fazendo um longo percurso da casa do Mercado e do Mercado a localidades mais afastadas como Pindamonhangaba, Caçapava, etc);
c. Comerciantes estabelecidos em suas próprias residências (local de trabalho), não tendo de trabalhar para a temporada de vendas (Natal) mas vendendo sempre, trabalhando sob encomenda.

Retomamos o desenvolvimento sócio-econômico da Imaculada em ordem cronológica para melhor compreensão:

• Em 1940, tiveram luz nas casas (antes era luz de lampião de querosene, à vela, lamparinas que enfumaçavam tudo).
• Em 1947, luz na rua.
• Em 1952, alguns compradores começaram a subir o morro e comprar as figuras nas casas.
• Em 1954, já vendiam para a Capital de são Paulo: comprador, Rossini Tavares de Lima.
• Em 1960, Luiza compra um acordeon e leva as festas para a rua. Houve aí uma grande sociabilização e conseqüentemente a necessidade de um Inspetor de Quarteirão.
• Nos anos de 1966, 1967 e 1968, Feiras de Artesanato foram organizadas por ocasião da Semana Monteiro Lobato promovida pela Prefeitura Municipal de Taubaté. Foi o grande salto que tornou a “arte ingênua dos figureiros de Taubaté”, nacional e internacionalmente conhecida.
• Em 1972, conseguem rede de esgotos para a rua. Em 1984, a Associação dos Moradores consegue o calçamento da rua.
• Em 1985, a idéia da Associação Geral dos Figureiros, artesãos e Artistas Populares de Taubaté e a idéia da Casa do Artesão no Alto da Imaculada se concretizam (nessa ano apareceram ônibus de turistas na rua Imaculada).

Pode-se observar indícios de valorização das peças e do oficio pelos próprios figureiros, que vão no decorrer dos tempos melhorando os padrões de trabalho, porque a vida muda e com ela tudo o que se refere ao homem. O importante é que na rua Imaculada estas mudanças se bipartem: de um lado o progresso material (carro, TVs, aparelhagem de som, altas tecnologias em todos os setores do mercado de trabalho, melhores condições de vida, etc), do outro, a compreensão do valor de sua obra e de suas tradições.

É a partir da nova geração que vamos encontrar a preocupação em agrupar os figureiros em uma associação.

No começo deste texto perguntou-se: ... “qual a importância que dão os figureiros da Imaculada à arte como válvula de escape, oportunidade para uma pessoa extravasar o que lhe vai por dentro?” diz Câmara Cascudo: “dinheiro não satisfaz a suficiência intima”, e é isso que leva a depositar nossas maiores esperanças de que a Imaculada continue a ser como diz Renato Teixeira “a tradição dos puros figureiros”.

O AMPARO DAS INSTITUIÇOES GOVERNAMENTAIS

A feiras municipais e a assistência dada pelos órgãos estaduais, quer oficiais (SUTACO) como os não oficiais (Museu do Folclore) tem sido de grande valia. Há alguns anos atrás, a exposição montada pelo Museu do Folclore Edson Cordeiro, na Sala do artista Popular (FUNARTE – Rio de Janeiro), veio confirmar que os figureiros da Imaculada ganham outros espaços que não são apenas de seu estado natal. Verificamos que a Prefeitura de Taubaté tem uma bem formulada política de apoio às tradições de sua cidade e a esse bem cultural de inestimável valor.

Vimos como desde o começo da história da Rua Imaculada suas lideranças se firmaram. Desde Conceição Frutuoso levando a imagem de Nossa senhora para lá. Mais tarde, todos os acontecimentos relativos às mudanças sócio-econômicas, sempre contaram com a participação efetiva dos membros da comunidade. Por que não acreditar nisso? Que os órgãos competentes fiquem atentos como alguém que observa uma criança aprendendo a andar “sem interferir demasiadamente em suas tradições”, apenas dando o apoio necessário.

Esperemos que os figureiros, sem as interferências de fora, encontrem seu caminho e continuem sendo uma das mais interessantes manifestações da cultura do nosso povo, testemunha da sensibilidade e traço característico da identidade cultural de nossa gente, bem como um bem cultural de imprescindível valor para a cidade de Taubaté.

 





Saiba mais...

Site Oficial Casa do Figureiro


 

Trabalhos realizados pelas Figureiras de Taubate