Mercado Municipal de Taubaté

Taubaté, abandonada pelos índios goianas, era outrora um simples lugarejo com um amontoado de casas desordenadas, toscas, construídas de pau-a-pique, cobertas de palha e dispostas ao redor da “banda do Tanque”, hoje Praça Dr. Campos Sales. A “banda do Tanque” abrangia então, o Largo do Mercado e o Ribeirão do Correia. Era na “banda do Tanque” que se achava localizado o reservatório de água que abastecia a escassa população do “arraial”. “Os brejos e o tanque formados pela corrente do Rio Convento Velho (ou Correia) era denominados de Água da Vila” e representaram desde os anos de 1640, um elo de ligação entre o povoado colonizador à margem esquerda, e a aldeia ameríndia à encosta da outra margem.

Em Atas do Conselho de 1793 aparecem referencias ao Tanque. Moradores pediram a Câmara permissão para abrir o aterrado da represa, esvazia-la e depois de limpar todo o lodo e as ervas que ali cresciam, prejudicando a saúde do povo que dela se servia indispensavelmente, tapa-la novamente. O trabalho foi executado por apenas alguns moradores.

O Tanque foi extinto no século XIX (ainda existia em 1855), tendo inicio a urbanização da área à medida que a vila se expandia para a vertente oposta do Convento Velho. De 1799 a 1822 e de 1838 a 1841 não se tem noticia à respeito da área em razão do desaparecimento de papeis originais desses período. Citações sobre a região do Tanque reaparecem nas Atas de 1826 e em 1842 se reiniciam as noticias.

Depois de muito questionamento político em torno de áreas fronteiras ao Tanque, em 1841 a Câmara reserva a região do Tanque como “logradouro público e parada de tropas”. Pela disposição topográfica do sitio, sabemos que ele seria como porta de entrada da vila para as tropas que chegavam carregadas de produtos variados da região de São Luiz do Paraitinga (serra do Quebra Cangalha), como das tropas carregadas de produtos importados pelo porto de Ubatuba. Os muares cansados por carregarem seus pesados jacás, suados pela penosa subida da Serra do Mar e pela longa e lenta caminhada até a vila, se aliviavam em poder descarregar o peso dos jacás, descansar à sombra dos arvoredos e principalmente mitigar a sede nas águas frescas de um bebedouro próximo ao Tanque. Aquele seria o momento tão esperado tanto pelo homem como para o animal. Portanto, essa disposição da Câmara de Taubaté, foi o “embrião” para o aparecimento do “MERCADO” na Vila de Taubaté.

Pela leitura das atas da Câmara de Taubaté percebemos que com o correr dos anos a região do Tanque foi se desenvolvendo como agitado centro comercial de época requerendo dos vereadores constante atenção e vigilância.

Assim, em 31 de maio de 1845, as autoridades taubateanas representados por seus vereadores concedem a Antônio Ferreira de Oliveira um pequeno terreno contíguo à ponte do Tanque para nele colocar um monjolo com a finalidade de trazer as águas limpas para uso dos moradores.

Em 1846 a Câmara “deixa livre o trânsito” nas margens do Tanque. Percebe-se aí, uma inquietação com disposições urbanas na região. Em sessão ordinária a 17 de agosto de 1852 os vereadores deixam registradas suas preocupações quando acontecem “acidentes” no Tanque, por sua profundidade. Nomeiam uma comissão de senhoras para buscarem soluções quanto ao problema. A vila de Taubaté crescia e o fim do Tanque se aproximava. A 9 de agosto de 1852, a “comissão especial” apresenta seu parecer: reduzir o Tanque a um lago raso, com 150 palmos quadrados, profundidade de apenas 4 a 5 palmos etc. a obra é orçada em 600 réis, por subscrição pública. A Câmara toda subscreve e nomeia para administrador o Sr. Vereador Manuel Inocêncio de Matos que aceita o encargo.

Aos poucos a região do Tanque foi sendo urbanizada, a fisionomia da área foi se modificando, passou a ser chamada de “Aguarda”, e o comercio ai estabelecido, foi progredindo.

O cidadão Fortunato José de Matos promovia subscrições para a construção de “quartos ou casinhas” onde se estabeleciam os gêneros que vinham de fora do município e a abasteciam, bem como, os que eram trazidos por quitandeiros ou roceiros; encarregava-se também da construção das mesmas. A Câmara Municipal aprovou esse agenciamento bem como expediu oficio autorizando.

Várias melhorias e limpezas foram feitas no “Largo do Tanque” ou “Largo da Quitanda”: foi concluída a construção, em 1857, de um telheiro para melhor comodidade do povo que para ali concorria.
Finalmente, trinta e dois (32) anos após, em 10 de novembro de 1889, cinco (5) dias antes da “Proclamação da República”, o jornal “O Noticiarista” publica orgulhosamente a noticia da inauguração do MERCADO MUNICIPAL DE TAUBATÉ.

Mais de um século após, Taubaté cresceu, mudou em todos os seus aspectos, e, em outro jornal, “A Voz do Vale do Paraíba”, de 26/27 de junho de 1993, lê-se em manchete com a fotografia do atual prefeito: “Ortiz vai concluir a reforma do Mercado Municipal”. Denota-se desse fato a preocupação das autoridades locais em preservar e sempre modernizar o Mercado Municipal, atendendo as necessidades urbanas que o mesmo requer, nunca perdendo de vista o que ele representa em termos de história e cultura locais e regionais.

Atualmente, foram feitas no Mercado Municipal todas as melhorias que a noticia de dois anos atrás nos informou: montagem de pilares, estrutura metálica espacial, fornecimento de mão-de-obra, além de colocação de telhas, calhas, rufos e condutores de cobertura da área externa.

O Mercado Municipal de Taubaté hoje é algo a ser apreciado tanto por dentro como por fora, e para quem conhece a sua historia, o seu valor cresce ainda mais, pois reconhece nele a trajetória histórica urbana cultural do povo taubateano em toda a sua riqueza.

A BARGANHA

A lenda das “barganhas” vem de longe, constituindo umas autentica instituição que já passou ao domínio da historia para enquadrar-se nos estudos folclóricos regionais.

Taubaté não poderia fugir à regra comum, e por ser uma cidade secular, como tantas outras cidades brasileiras, tem também os seus hábitos e costumes sobreviventes do passado como popularmente conhecida “Breganha” que tem bravamente resistido à “despersonalização” a fim de preserva-la da vulgaridade da comercialização comum.

A barganha é simples: reúnem-se no Largo do Mercado aos sábados de manhãs, os candidatos à venda, compra ou troca de objetos. Já aconteceu a barganha na Praça Dom Epaminondas em certa época, em frente à catedral. Tudo serve para troca: guarda-chuvas, bengalas, relógios, despertadores, facas, canivetes. Garruchas, espingardas, ferros elétricos, peças de eletrodomésticos, sapatos, roupas, colares, brincos, etc.

As pessoas que costumavam e costumam freqüentar o Largo do Mercado para barganhar, passam assim por uma distração única. Durante a semana ficam à espera do sábado e quando chega o dia, com paciência e “jogo de cintura”, procuram trazer consigo algo de novo e alguma “vantagem” também.

As barganhas de Taubaté ganharam fama e ultrapassaram as fronteiras do município. Ninguém sabe ao certo como isso aconteceu. Sabe-se apenas que existem os barganhistas, verdadeiros leiloeiros da saudade, que agitam as manhãs barulhentas do Largo do Mercado. As rodinhas são vistas de longe e aqueles homens, por vezes agricultores, camaradas de sítios ou fazendas, gente de mão calejada, chapéu de palha ou feltro à cabeça e cigarro de palha ou ainda os atuais colocados no vão da orelha, reúnem-se discutindo vantagens e procurando obter algo de novo para que durante a semana sonhem com a nova reunião no sábado seguinte.

Certa vez uma discussão foi motivo de intervenção policial: “um barganhista” que havia ficado com um despertador de marca duvidosa, que deixara de trabalhar, reclama que o antigo dono “teria botado barata drento, pra móde fazê baruio” ... A situação pegou fogo e as pessoas quase chegaram às vias de fato.

Os barganhistas de Taubaté aceitam qualquer reclamação, “mas não levam desaforos para casa” ...

A ação se desenvolve em três atos e compreende, no mínimo dois personagens a que se agrupam outros interessados e os “sapos” (torcedores, viciados na barganha, afeiçoados). Os “sapos” comentam o negócio, apreciam a destreza mental dos “breganhistas”, sorriem do que saiu logrado.

A barganha é o retrato de um povo alegre e simples que se diverte e se contenta com a ingenuidade em confronto com tanta perspicácia, num linguajar que somente os conhecedores de sua historia e tradição reconheceriam e valorizariam.

Hoje a Feira da Barganha, muito perdeu de seu contexto original, pois tornou-se um comercio de objetos novos e usados de todo o tipo, mas ainda continua sendo o ponto de encontro de muita gente amiga.

 

 


Fotos Mercado Municicipal - Acima - 1860, Abaixo - 1995